terça-feira, 10 de novembro de 2009

SIM, FAREI...; e hora a hora passa o dia...

I

SIM, FAREI...; e hora a hora passa o dia...
Farei, e dia a dia passa o mês...
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.

Farei, Farei... Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo... E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão...

Farei, farei, farei... Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo – a paz, a ilusão, a glória...
Que obscuro absurdo na minha alma chora?

II

Farei talvez um dia um poema meu,
Não qualquer cousa que, se eu a analiso,
É só a teia que se em mim teceu
De tanto alheio e anônimo improviso
Que ou a mim ou a eles esqueceu...

Um poema próprio, em que me vá o ser,
Em que eu diga o que sinto e o que sou,
Sem pensar, sem fingir e sem querer,
Como um lugar exacto, o onde estou,
E onde me possam, como eu, me ver.

Ah, mas quem pode ser quem é? Quem sabe
Ter a alma que tem? Quem é quem é?
Sombras de nós, só reflectir nos cabe.
Mas reflectir, ramos irreais, o quê?
Talvez só o vento que nos fecha e abre.

III

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre das falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Pessoa, Fernando. Obra Poética. Editora: Nova Aguilar, 1986.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Manuel Bandeira - Alguns Poemas

Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho em mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

O Último Poema

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

*BANDEIRA, Manuel. Libertinagem e Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Resenha do conto - A Substância Sobrenatural dos Sonhos

É com muito prazer que faço essa resenha para o conto do meu queridíssimo amigo Caio Vasques. Caio é um jovem escritor de apenas 18 anos, nascido no dia 16/12/1990, na cidade de São José de Pádua, interior de Minas Gerais. Tem pouca coisa escrita ainda, entre contos e poesia, mas de uma intensidade e profundidade impar.

Seu conto, segundo ele próprio relatou, foi escrito em circunstâncias parecidas com a vivida pelo personagem - numa angustiosa noite de insônia. De fácil leitura, o conto nos lança nos meandros da mente perturbada de um jovem rapaz que se apavora com o profundo silêncio que o cerca e, ao mesmo tempo, idéias começam a fervilhar em sua mente com tal intensidade que, contrastando com a calma exterior, levam-no a beira da loucura.

A conto demonstra o transbordamento criativo de uma mente que não consegue extravasar essa mesma criatividade, levando-a assim a uma angústia extrema. Quem não passou por isso quando acorda sem sono e, ainda deitado na cama, pensando, tem aquela idéia que lhe parece genial?! A angustia que dá até colocarmos isso pra fora... do contrário não voltaríamos a dormir.

O conto começa dessa forma, com uma idéia para um poema, e que é justamente o poema usado no conto. Caio conta que logo depois, na mesma noite de insônia, teve a idéia para o conto e anexou os poemas a este. Os poemas em si não são grande coisa (separados do conto seriam apenas a descarga catártica de um desassossego que não o deixava dormir), porém, somados ao conto, tomam nova magnitude. Vale a pena ser lido.

Com consentimento de Caio, estou disponibilizando o conto para download:

download

Confiram!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Motivos para beber (parte2)

NÃO DIGAS que, sepulto, já não sente
O corpo, ou que a alma vive eternamente.
Que sabes tu do que não sabes? Bebe!
Só tens de certo o nada do presente.

***

Ninguém suporta o peso mau dos dias
Salvo por interpostas alegrias.
Bebe, que assim serás o intervalo
Entre o que criarás e o que não crias.

(...)

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É o vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.

(...)

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

***

TUDO FOI DITO antes que se dissesse.
O vento aflora vagamente a messe,
E deixa-a porque breve se apagou.
Assim é tudo-nada. Bebe e esquece.

Na eterna sesta de não desejar
Deixa-te, bêbado e asceta, estar.
Lega o amor aos outros, que a beleza
Foi feita só para se contemplar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Motivos para beber:

O tédio de Khayyam não é o tédio de quem não sabe o que faça, porque na verdade nada pode ou sabe fazer. Esse é o tédio dos que nasceram mortos, o dos que legitimamente se orientam para a morfina ou a cocaína. É o tédio de quem pensou claramente e viu que tudo era obscuro, de quem mediu todas as religiões e todas as filosofias e depois disse, como Salomão: “Vi que tudo era vaidade e aflições de ânimo”, ou como, ao despedir-se do poder e do mundo, outro rei, que era imperador, nele, Septímio Severo: “Omnia fui, nihil...” “fui tudo; nada vale a pena”.
A vida, disse Tarde¹, é a busca do impossível através do inútil; assim diria, se o houvesse dito, Omar Khayyam.
Daí a insistência do persa no uso do vinho. Bebe! Bebe! é toda a filosofia prática. Não é o beber da alegria, que bebe porque mais se alegre, porque mais seja ela mesma. Não é o beber do desespero, que bebe para esquecer, para ser menos ele mesmo. O vinho junta a alegria a acção e o amor; e há que reparar que não há em Khayyam nota alguma de energia, nenhuma frase de amor. Aquela Sàki, cuja figura grácil entrevista surge (mas surge pouco) nos rubaiyat, não é senão a “rapariga que serve o vinho”. O poeta é grato à sua esbelteza como o fora à esbelteza da ânfora, onde o vinho se contivesse.
A alegria fala, do vinho, como o Deão Aldrich²:

A gente tem, a meu ver,
Cinco razões para beber:
Um brinde, um amigo, ou então
Sede, ou poder vi-la ter,
Ou qualquer outra razão.*

A filosofia prática de Khayyam reduz-se pois a um epicurismo suave, esbatido até ao mínimo do desejo de prazer. Basta-lhe ver rosas e beber vinho. Uma brisa leve, uma conversa sem intuito nem propósito, um púncaro de vinho, flores, em isso, e em não mais do que isso, põe o sábio persa o seu desejo máximo. O amor agita e cansa, a acção dispersa e falha, ninguém sabe saber e pensar embacia tudo. Mais vale pois cessar em nós de desejar ou de esperar, de ter pretensão fútil de explicar o mundo, ou o propósito estulto de o emendar ou governar. Tudo é nada, ou, como se diz na Antologia Grega, “tudo vem da sem-razão”, e é um grego³, e portanto um racional, que o diz.

¹ Gabriel Tarde (1843-1904), sociólogo e criminalista francês.
² Henry Aldrich (1647-1710), Deão de Christ Church, em Oxford, era conhecido sobretudo com teólogo e humanista.
³ Glícon.

* Uma das tradução de Pessoa, a outra é:

Creio que há para beber
Cinco razões, e que são:
Um brinde, um amigo, haver
Sede, ou poder vi-la a ter,
Ou qualquer outra razão.

Fragmento do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Resenha do filme: E o Vento Levou...


Descobri um novo dom meu (não que eu tenha outros...): fazer resenhas de filmes. Não entendo muito de filmes, mas descobri que sou ótimo para comentar sobre eles...

Espero postar resenhas de outros filmes o futuro.
Começarei com um clássico: O que pode ser falado de E o vento levou...?

Por mim não muito, não o vi ainda... mas me disseram que é muito bom!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

2º Caso da H.E.R.P.E.S.

Enfim apareceu um segundo caso para a famigerada hempresa! Fiz muito bem de usar o blog como meio de propaganda. Como ele é acompanhado por muitas e muitas pessoas, tendo milhares de visualizações por dia, a hempresa logo ficou muito conhecida e choveram procuras! Como o nº de funcionários ainda é muito pequeno não podemos atender a todas... por isso peço a compreensão e paciência de todos que procuram nossos serviços.

Para quem não conhece a H.E.R.P.E.S. veja postagem anterior, onde a hempresa (e o porque de eu estar escrevendo empresa com H) é apresentada pela primeira vez ao público em geral e explicada em seus pormenores. Além, é claro, do nosso curioso primeiro caso...

Segue-se, então, a descrição de nosso segundo caso:
(Afinal, não há propaganda melhor para a hempresa do que verem na prática como ela funciona!)

Eu e o Gusta... quer dizer, Agente G., conversávamos na sede da H.E.R.P.E.S., esperando, ansiosamente, um novo caso...

- Agente G.: Agente Z, estava lendo um livro de filosofia...
- Agente Z.: Você lendo filosofia?
- Agente G.: Porque não? Sabe que sou um leitor assíduo!
- Agente Z.: Sim, mas achava que era só de coisas imprestáveis...
- Agente G.: Mas filosofia não é uma coisa imprestável?
- Agente Z.: É verdade... Continue.
- Agente G.: Pois então, topei com um autor que me preocupou muito, na verdade acho que ele pode estragar nossos negócios na H.E.R.P.E.S. Wittgeinstain, conhece?
- Agente Z.: Claro que sim! Mas porque ele seria um problema para nós?
- Agente G.: Justamente por isso! Ele diz que na verdade não existem problemas verdadeiros... Fala que todos problemas são desfeitos com uma análise gramatical da própria pergunta, descobrindo, então, que o problema é um falso problema, que o problema está na formulação errada da pergunta...
- Agente Z.: Mas quando ele desfaz o problema ele não está resolvendo o problema?
- Agente G.: humm... É verdade!
- Agente Z.: Então ainda existem problemas a serem resolvidos, e é justamente isso que fazemos aqui, não?
- Agente G.: É mesmo Agente Z., você é genial! Tem toda a razão, mas...

Nesse momento, interrompendo nossa animada discussão, entra na sala uma bela mulher, usando um pequeno vestido vermelho que deixava a mostra todas suas belas curvas, possuia longos cabelos negros, um olhar penetrante, seios voluptuosos e duas belas coxas, entre outras coisas...

Agente G. e eu por um longo intervalo de tempo ficamos sem palavras. Até que ela diz:
- Olá, meu nome é N. (manteremos seu nome em sigilo, por motivos que ficarão claros mais a frente), vocês são da H.E.R.P.E.S?
- Agente Z. (antecipando-se ao Agente G., que ainda estava babando...): Sim, tem algum problema?
- N.: Só estava perguntando... não precisa ser grosso!
- Agente Z.: Não é isso, bela dama, nós resolvemos problemas, perguntei se você tem um pra resolvermos...
- N.: Ah! Pois então, por isso estou aqui.
- Agente G. (já se recobrando): Antes gostaria de fazer-lhe uma pergunta: como ficou sabendo da Hempresa? Mas antes que responda gostaria de dizer que tem uma voz muito bela e doce... tão doce que parece grudar na nossa mente como aquelas balas de grude grudam no céu da boca, ou um chiclete gruda no sapato, ou..., ou...
- Agente Z.: Ou qualquer outra bela coisa doce que grude!... mas responda, como ficou sabendo da H.E.R.P.E.S.?
- N.: Vi o anúncio da Hempresa em um blog... então entrei em contato com você por lá, e me pediu para que eu viesse aqui, hoje...
- Agente G.: Mas Agente Z., você não me disse nada! Se soubesse que ia receber uma moça tão bonita teria vindo melhor preparado...
- N.: Mas você está muito bem senhor G...
- Agente G.: Chame-me de Agente G., senhora N., e não estou bem coisíssima nenhuma!!!
- Agente G. (para Agente Z.): Odeio quando me chamam de senhor! Se ela me chamar de senhor de novo...
- Agente Z.: Calma Agente G., foi por essas cismas suas que perdemos aquele nosso caso, o único caso que não conseguimos resolver em toda a história da H.E.R.P.E.S! E você não reparou que ela disse que está muito bem?
- Agente G.: Ela disse isso? Você disse isso?
- N.: Sim, claro. Está muito bem.
- Agente G.: Ah, obrigado. Pode me chamar de senhor, então, se quiser...
- Agente Z.: N., sem mais delongas, diga-nos porque veio...
- N.: Ah, claro. Minha história é muito complicada...
- Agente Z.: Não existe nada complicado demais para nós minha querida, diga-nos...
- N.: É que eu estou muito carente... e preciso fazer sexo!
- Agente G.: É verdade Z., isso é bem complicado!
- Agente Z.: Vamos escuta-la, primeiro G.... como assim, senhorita N?
- N.: Como assim o quê? Isso é bem simples!
- Agente Z.: Simples? Você não disse que era complicado minutos atrás?
- Agente G.: Muito astuta sua observação Z., como sempre.
- Agente Z.: Obrigado, Agente G.
- N.: Desculpe, sei que é difícil entender como a mente de uma mulher funciona... Quis dizer que minha história é complicada, mas o que quero é bem simples... complicado é pra mim conseguir, sendo tão feia!
- Agente G. e Agente Z. (em completo espanto): Hã?!? Você é feia?
- N.: Sim. Já fiz diversas plásticas, 32 ao todo, depois que sofri um desastre terrível; mas não consegui recuperar minha aparência anterior...
- Agente G.: Você era mais bonita ainda???
- N.: Era bonita antes, não o sou agora... Vejam essa foto minha de antes do desastre.
- Agente Z.: Deixe-me ver (pega a foto, analisa-a cuidadosamente e passa para o Agente G.) - Veja isso Agente G.
- Agente G.: Deixe-me ver... é verdade Z. Vejo que temos um falso problema, como Wittgenstein disse...
- Agente Z.: Esqueça isso G.! Temos um problema sim... E muito verdadeiro. E descobri também com resolver um outro problema meu agora mesmo... - (a N.): Podia me passar o nome do seu cirurgião plástico? Ele fez um ótimo trabalho, você está muito mais bonita agora do que antes!!! Espero ter encontrado alguém que possa, finalmente, dar um jeito nesse meu nariz...
- N.: Não creio que fiquei mais bonita. É que tenho uma irmã gêmea, gêmea idêntica... Ela tem a mesma aparência que eu tinha antes do acidente. Todos vivem falando que ela é muito bonita e até meu antigo namorado me largou... agora ele está com ela. Disse que ela se parece mais comigo do que eu mesma. Depois disso fiquei tremendamente traumatizada e não consigo mais arrumar um homem sequer... e isso já faz muito tempo... não suporto mais!!! (Se aproxima do Agente G., roçando os fartos seios no seu ombro magro)
- Agente G.: Essa mulher está mais perigosa do que um bode tarado! Temos que ser cautelosos Agente Z.
- Agente Z.: Deixe comigo G. Sabe que entendo bem das mulheres... Uma mulher é como um livro aberto, basta separar as maças podres dos pêssegos, e se alguém me provar o contrário eu juro que jogo fora... jogo fora... jogo fora o que mesmo?
- Agente G.: Seu distintivo?...
- Agente Z.: Isso!
- N.: Mas o que farão quanto ao meu problema? Vocês não resolvem qualquer coisa? Queria discrição, por isso os procurei, uma mulher do meu nível não pode sair por aí procurando por sexo em qualquer lugar... além do mais quero encontrar alguém legal, assim como vocês...
- Agente Z.: Pois veio ao lugar certo, então!
- Agente G.: Espera aí... Você quer sexo ou discrição?
- N.: Os dois! Vocês são loucos ou o quê? Não estão entendendo?
- Agente Z.: Claro que sim... como você pretende pagar esse pequeno trabalhinho? Acho que teremos de cobrar caro por esse caso...
- N.: Ah, acho que agora você está entendendo... posso pagar o que você quiser, como você quiser, na verdade estou disposta a dar qualquer coisa para solucionar esse problema, se é que me entende...
- Agente G.: Qualquer coisa?
- N.: Sim.
- Agente Z.: Muito bem então, Agente G., você está pensando o mesmo que eu?
- Agente G.: Acho que sim Agente Z.
- Agente Z.: Pois bem... N., você agora trabalha na H.E.R.P.E.S.!
- N.: O quê?? Não vim aqui procurando emprego!
- Agente Z.: Mas assim resolveremos seu problema e de quebra teremos um substituto pro agente B., que saiu pra buscar pizza e até agora não voltou...
- Agente G.: É, vamos demiti-lo, ele é muito lento, a pizza já deve estar até fria...
- N.: Como assim resolveram meu problema?
- Agente Z.: Deixe-me explicar: você pode trabalhar aqui até aparecer alguém com o mesmo problema que o seu, isso é comum de acontecer... aí então resolvemos dois problemas de uma só vez. Dois coelhos com uma paulada só, entendeu?
- N.: Entendi... mas isso não vai demorar? Não tem uma forma mais rápida pra resolver não?
- Agente G.: A gente pode mudar o ramo da hempresa para uma que aluga acompanhantes, você vai conhecer vários possíveis candidatos para resolver seu problema! Você seria nossa primeira “empregada”, se é que me entende... Essas mulheres trabalham muito, sempre tem freguês, além do mais, ganham muito dinheiro.
- Agente Z.: Muito bom G. Assim posso realizar meu sonho de ser Cafetão!
- Agente G.: E podemos manter o nome da hempresa, que passaria a significar: HEmpResa Promovedora de Encontros Sexuais, H.E.R.P.E.S!
- Vocês estão pensando o que de mim!? Queria discrição...
- Agente G.: Seria uma hempresa bem discreta...
- N.: Não, não quero ser prostituta!!
- Agente G.: Mas ninguém disse que seria isso...
- Agente Z.: Se quiser podemos manter a idéia original, trabalharia aqui até aparecer alguém com um problema parecido com o seu... aí juntamos os dois e, pimba!! Tudo resolvido...
- Agente G.: Foi uma boa idéia mesmo Z. Assim temos menos trabalho, podemos fazer isso com todos os casos que aparecerem, o que acha?
- N.: Eu vou-me embora... vejo que não vou conseguir resolver isso hoje...
- Agente Z.: É verdade, já está tarde, não deve chegar mas nenhum cliente.
- N.: Aff... (sai nervosa).
- Agente Z. (gritando pra N., depois que ela acabara de sair): Pode começar a trabalhar amanhã então, Agente N.!
- Agente G.: Mais um caso resolvido Z... Mas ela foi sem pagar!
- Agente Z.: Não se preocupe G., descontamos do salário dela.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mais Novas Poesias Inéditas

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

***

Dormi. Sonhei. no informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me despercebi.

***

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

***

No chão do céu o Sol que acaba arde.
Durmo. Haja a vida com ou sem alarde,
Será já tarde quando eu despertar?
Mas que me importa que já seja tarde?

***

SE PENSO mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

(...)

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.

Novas poesias inéditas - Fernando Pessoa.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pessoa - Novas Poesias Inéditas

I

SIM, FAREI...; e hora a hora passa o dia...
Farei, e dia a dia passa o mês...
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.

Farei, Farei... Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo... E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão...

Farei, farei, farei... Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo – a paz, a ilusão, a glória...
Que obscuro absurdo na minha alma chora?

II

Farei talvez um dia um poema meu,
Não qualquer cousa que, se eu a analiso,
É só a teia que se em mim teceu
De tanto alheio e anônimo improviso
Que ou a mim ou a eles esqueceu...

Um poema próprio, em que me vá o ser,
Em que eu diga o que sinto e o que sou,
Sem pensar, sem fingir e sem querer,
Como um lugar exacto, o onde estou,
E onde me possam, como eu, me ver.

Ah, mas quem pode ser quem é? Quem sabe
Ter a alma que tem? Quem é quem é?
Sombras de nós, só reflectir nos cabe.
Mas reflectir, ramos irreais, o quê?
Talvez só o vento que nos fecha e abre.

III

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre das falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Novas poesias inéditas - Fernando Pessoa.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

CRÍTICA KANTIANA DA PSICOLOGIA RACIONAL: A IMPOSSIBILIDADE DE SE CONHECER A ALMA.

O objetivos do trabalho é compreender a crítica de Immanuel Kant (1724-1804) a psicologia racional e como ela se desenvolve até desembocar na Crítica da Razão Pura, culminando no veto a psicologia científica apresentado nos Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza. Usamos como referência, bem como as obras citadas, os Sonhos de Um Visionário e a Dissertação de 1770, assim como a literatura secundária. A importância da crítica kantiana a psicologia racional para a psicologia moderna pode ser demarcada, a nosso ver, primeiro no que diz respeito a cientificidade da psicologia e segundo quanto ao objeto próprio da psicologia, uma vez que a psicologia racional trata justamente da alma, de sua essência, de sua relação com o corpo, etc. Esse conhecimento que se busca apreender da alma, ou seja, da simples consciência de um eu, enquanto sujeito pensante e objeto do sentido interno, portanto de uma autoconsciência que acompanha o sujeito por toda a vida dando-lhe unidade e personalidade, deve partir da especulação pura. Assim a psicologia racional vai buscar alcançar os predicados desse mesmo eu, que está presente em todo pensamento e acompanha toda experiência, da única forma em que ele pode ser alcançado: pelo próprio pensamento. De forma geral é esse o cerne da crítica de Kant: o eu, enquanto palco onde se dá todas as representação, só pode ser dado, necessariamente, como sujeito do pensamento e portanto só existe intelectualmente, a ele não podem ser dados predicados que só podem ser aplicados a coisas da experiência. Dessa forma o erro da psicologia racional é, através da análise do eu, formular proposições tais como: (1) a alma é substância, (2) é simples, (3) é idêntica, (4) está (ou não) em relação com objetos possíveis no espaço. Ora, tais proposições necessitam de provas dadas pela experiência e, relativo a alma, nada pode ser dado na experiência. Porque, apesar de parecer na consciência de nós próprios, numa intuição imediata, que possuímos uma substancialidade, esse conceito por nós formulado de nós mesmos permanece sem conteúdo. Ele, de fato, nada mais é que um sentimento de existência vazio e apenas representação em que se relaciona todo pensamento. Esse eu será sempre o sujeito que conhece e nunca poderá tornar-se objeto do conhecimento, só temos consciência dele porque dele carecemos imprescindivelmente para a possibilidade da experiência. Assim, a impossibilidade de se conhecer a alma acaba com todas as inspirações da psicologia racional. Não sendo possível uma psicologia racional, a psicologia, enquanto projeto científico, se vê em sérios embaraços: só lhe resta a psicologia empírica, e esta, sem uma base a priori (que seria dada pela psicologia racional), estará limitada a uma simples disciplina histórica, de descrição de estados internos, não pertencendo, para Kant, ao ramo das Ciências Genuínas.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O grande Salvador do Planeta!!!


Gente, pelo amor de deus, ampliem essa imagem e leiam a biografia do cara. Ele é um gênio! Com certeza o Salvador desse planetinha miserável só pode ser ele!

O melhor de tudo: ele é o "Fundador e Coordenador Geral Mundial do Movimento Mundial da Beleza" (e olha como ele é bonito!), além de descobridor da quarta (?) parte da mente humana, denominada por ele de essência, e considerado o maior fato da história da Psicologia, depois de Sigmund Freud... Porque eu nunca estudei isso na faculdade? tem algum complô para que isso não seja de conhecimento geral? Além de tudo isso (e mais outras preciosidades) também foi Bicampeão Mundial em Paris!!! (Mas Bicampeão de quê, porra?!?) hahaha

Cada uma que me aparece...

Entrevista com o Dr. Paulo Urbitan

Entrevista com o Dr. Paulo Urbitan, de Porto Alegre, RS.

Pergunta: Exercícios cardiovasculares prolongam a vida, é verdade?

Resposta: O seu coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só... não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo gasta-se eventualmente. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais: isso é como dizer que você pode prolongar a vida do seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca !!!

P: Quais são as vantagens de um programa regular de exercícios?

R: Minha filosofia é: Se não tem dor... tá bom!

P: Devo cortar a carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?

R: Você precisa entender a logística da eficiência... .O que a vaca come? Feno e milho. O que é isso? Vegetal. Então um bife nada mais é do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema. Precisa de grãos? Coma frango.

P: Devo reduzir o consumo de álcool?

R: De jeito nenhum. Vinho é feito de fruta. Brandy é um vinho destilado, o que significa que, eles tiram a água da fruta de modo que vc tire maior proveito dela. Cerveja também é feita de grãos. Pode entornar!

P: Frituras são prejudiciais?

R: VOCÊ NÃO ESTÁ ME ESCUTANDO!!! ... Hoje em dia a comida é frita em óleo vegetal. Na verdade ficam impregnadas de óleo vegetal. Como pode mais vegetal ser prejudicial para você?

P: Flexões ajudam a reduzir a gordura?

R: Absolutamente não! Exercitar um músculo faz apenas com que ele aumente de tamanho.

P: Chocolate faz mal?

R: Tá maluco? !!!! Cacau!!!! Outro vegetal!! É uma comida boa pra se ficar feliz !!!

E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca - Cerveja em uma mão, tira-gosto na outra, muito sexo e um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: VALEU !!! QUE VIAGEM!!!

P.S.: SE CAMINHAR FOSSE SAUDÁVEL, O CARTEIRO SERIA IMORTAL...!

Obrigado Dr. Urbitan, por dar-nos um pouco de sua grande sabedoria!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A QUESTÃO DA LOCALIZAÇÃO DA ALMA HUMANA NO PENSAMENTO PRÉ-CRÍTICO DE KANT

O presente trabalho é fruto do projeto de pesquisa “Possibilidades e Limites da Psicologia Empírica no Pensamento de Kant”. Dentro dessa pesquisa, notamos o desenvolvimento da resposta que Kant dá ao problema do conhecimento da alma. Tais discussões pertenciam à chamada psicologia racional, que buscava conhecer os predicados da alma humana através da especulação pura, sem contaminá-la com aspectos empíricos. Kant, na Crítica da Razão Pura (1981), delimita o conhecimento da disciplina a aspectos puramente negativos: da alma nada se pode conhecer. Porém, notamos que essa dura crítica já estava sendo formulada em obras do período pré-crítico, especialmente em relação ao problema da localização da alma no cérebro. O objetivo do presente é analisar como essa questão é tratada no período pré-crítico de Kant. Para tanto, serão analisados os textos Sonhos de um visionário (1766) e Ensaio sobre as doenças mentais (1764), além da literatura secundária. Nos Sonhos de um visionário, Kant faz uma distinção entre o espírito e a alma, ambos de natureza imaterial, sendo esta última a parte do espírito que se liga ao corpo. A partir disso, ele coloca a questão: “onde é o lugar dessa alma no mundo corporal?”. Ironicamente ele menciona a opinião de alguns sábios que de pronto localizaram sua morada em um pequeno lugar no cérebro. Essa opinião, segundo Kant, parte do mesmo raciocínio que atribui ao coração o título de “órgão do amor”. Proposições desse tipo, diz ele, partem da falta de conhecimento aprofundado sobre a natureza do assunto. Visto ser contraditório questionar sobre a extensão de algo que é imaterial, é igualmente sem sentido confinar tal ser a um lugar específico do corpo. A reflexão de Kant vai ainda mais longe, ao mostrar as raízes da idéia de um eu imaterial que se diferencia do conceito de corpo, gerando juízos sobre a relação entre ambos. No entanto, tais juízos nada mais seriam que invenções, segundo Kant, e nem mesmo poderiam chegar a ser hipóteses, pois estas são formuladas a partir de observações de forças fundamentais, mas não de criações fantasiosas. Kant chega até mesmo a afirmar que, no futuro, talvez fosse possível ter opiniões de todo tipo a esse respeito, mas que nada se poderia saber sobre o mesmo. Conclui-se que, nas discussões presentes sobre o problema mente-cérebro, são apresentadas opiniões muito semelhantes àquelas cuja inviabilidade Kant já havia demonstrado, fato este que parece ter passado despercebido pelos sábios contemporâneos.

[P.S.: Resumo do trabalho que enviei para SBP]

terça-feira, 2 de junho de 2009

If

Composição: Roger Waters

If I were a swan, I'd be gone
If I were a train, I'd be late
And if I were a good man,
I'd talk with you more often than I do
If I were to sleep, I could dream
If I were afraid, I could hide
If I go insane, please don't put
Your wires in my brain
If I were the moon, I'd be cool
If I were a rule, I would bend
If I were a good man, I'd understand
The spaces between friends
If I were alone, I would cry
And if I were with you, I'd be home and dry
And if I go insane,
Will you still let me join in the game?
If I were a swan, I'd be gone
If I were a train, I'd be late again
If I were a good man,
I'd talk with you more often than I do...


Música do Álbum Atom Heart Mother (que é praticamente uma peça clássica, pra mim um dos melhores álbuns do PF)


Waters provavelmente a escreveu pro Sid Barret que já tinha se afastado da banda e estava internado em um hospício... Escutando essa música sinto exatamente o que ele quis dizer: como nos afastamos das pessoas que gostamos... Se eu fosse um bom amigo, procuraria fazer por onde....

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tome Transpulmin

H.E.R.P.E.S.

Bom, devem estar pensando q negócio é esse de H.E.R.P.E.S.!!!

Eu e um amigo meu de faculdade (o grande Gustavo, mais conhecido com Harry Potter), fundamos uma hempresa juntos: se trata de uma empresa em resolução de problemas, qualquer problema mesmo. Nosso slogan é "resolvemos qualquer problema, menos os nossos!"

Tinhamos então um grande problema - qual seria o nome da nossa recém formada hempresa? Na época tinha sugerido "Zé & Associados", mais não foi muito bem aceito... (não sei porque, acho um belo nome!)

O Gustavo ficou de pensar e teve a idéia desse. Aceitei. Também não é um mal nome...

Segue-se a sua explicação para a nome e ainda o relato do nosso primeiro caso para um possível cliente:

Prá vc ter uma referência da seriedade de como nossa hempresa trabalha, vou contar como se desenrolou nosso primeiro e inusitado caso. Mas antes vou explicar por quê empresa com H. Aposto que perdeu a noite tentando desvendar o mistério, né? Eu,como já sabia a razão, dormi como um bebê cuja mãe viciada em crack que amamenta o filho com leite e barbitúricos para o moleque apagar e parar de chorar; em outras palavras dormi com um anjinho.

Bom, o negócio é o seguinte. Há duas razões para isso. Fiquei sabendo q antigamente agá não existia, depois todas as palavras passaram a começar e terminar com agá. Algumas tinham até agá no meio e outras ainda só usavam agá. Acompanhe a evolução: agá > HagáH > HaHáH > HHHH > e finalmente H.
O outro motivo é que eu e o Zé, digo!, agente Z, nos reportamos ao sócio misterioso e majoritário, o sr. H.

Esta é a cópia de parte de nossa ata nos negócios daquele dia.

Nosso primeiro caso veio na figura de um homem que entrou no escritório (ainda uma casa abandonada q eu e o agente Z. ocupamos), e sentou-se querendo nos contratar para resolver um inédito difícil problema. Do outro lado da mesa estava eu (agente G.), e o agente Z., ambos de pé e cada um do lado do agente B., nosso recruta. Decidimos testar e treinar o agente B. entregando a ele o primeiro caso. O Zé, éh, o agente Z. me cutucou e me disse à parte:
--Sabe, se der certo, podíamos abandonar essa idéia de resolver problemas e montar uma empresa de recrutamento.
Eu respondi, também à parte, para q não ouvissem nossas idéias milionárias:
--Tem razão! e ainda poderíamos manter o mesmo nome: Hempresa de Recrutamento de Prodígios (ou H.E.R.P.E.S).
--E ainda podemos fundir nossa empresa num comglomerado com aquela outra empresa, a Gen & Tal.
Enquanto discutíamos, o agente B. já começava a atender o cliente, quando interrompi:
--Só um momento. Como o senhor ficou sabendo de nossa Hempresa?
cliente: tá brincando ?...há vinte minutos o senhor me parou ali na esquina, passou um papel com esse endereço, e ficou dez minutos me falando do que se tratava e mais cinco minutos de como gosta de lasanha. Depois se dirigiu prá cá e entrou na casa.
agente G.: É verdade, gosto muito de lasanha.
agente Z.: agente B., pergunta para o cliente por quê ele está aqui.
O agente B. parecia um pouco alterado, talvez pelo nervosismo da estréia.
agente B.: Meu nome é Mário!
O agente Z e eu sempre ríamos quando ele dizia isso.
agente B.: mas não interessa !( virando-se para o cliente ): o que o traz aqui, meu bom homem?
cliente: eu tenho um problema, e não via solução...até agora. Já tentei convencer minha família e amigos, mas não me levam a sério.
agente B.: estamos aqui prá isso, resolvemos qualquer problema!
cliente: é o que diz no papel.
agente G.: não é papel, é nosso cartão de visitas.
cliente: isso é um guardanapo!
agente Z.: para o olho não treinado...
agente B.: Calem a boca! deixem o homem falar.
Eu e Z. nos olhamos, sombramcelhas arqueadas, e deixamos o homem falar a que veio. Mas eu já estava achando que o agente B. tava tomando muita liberdade conosco, seus chefes.
cliente: Vim aqui por quê quero, quando morrer, ser jogado na boca de um pelicano.
agente B.: o quê ?!
agente Z.: interessante !
agente G.:também achei !
O agente B nos olhou, suas sombrancelhas pareciam ter se juntado. Voltou-se para o cliente, que estava sentado à nossa frente com as pernas cruzadas, expressão séria e ar distinto. O agente B. elevou a voz.
agente B.: o senhor quer ser jogado na boca de um pelicano?
cliente: correto.
agente B.: mas claro, é um desejo totalmente razoável ! nem imagino por quê não o levam a sério. Aliás, podíamos ir até o porto mais próximo, laçar um pelicano e te jogar na barriga dele agora mesmo!...
Eu e o Z. nos olhamos. Com anos de treinamento em linguagem gestual, nos compreendemos perfeitamente. Eu pensava:"o agente B. está se excedendo. Jogar alguém vivo dentro de um pelicano!?" Z. pensava:"o agente B. esta realizando um bom trabalho...tô com fome, será que na geladeira tem pizza?
agente B.:...ou então te arremeçamos no nosso próprio pelicano, lá atrás no quintal!
Cutuquei Z. e falei:"mas do que é que ele está falando? no quintal só tem frango".
B. berrava:
agente B.: não serve um bem-te-vi? ou um avestruz? por que não um jacaré?
O homem, muito sério, respondeu:
cliente: Eu quero um pelicano. E só depois que eu morrer.
agente B.: a gente te mata !"resolvemos qualquer problema."
Enquanto ocorria esse diálogo, passei um papelzinho prá Z, por cima da cabeça de B:"Zé,acho que B. precisa de mais treinamento...e não vou matar ninguém". Ao que respondeu:"como assim?"

Se há uma coisa que me tira do normal, é uma fala clara ser feita, e responderem "como assim?" Por isso, passei outro bilhete muito mal-criado que terminava perguntando "como assim, o quê?", e se Z. ia querer pizza. Z. concordou, o que me acalmou um pouco, mas jurei que se mais alguém dissesse "como assim?", a coisa ia ficar feia.
O agente B.: deu uma pausa na gritaria, pois estava vermelho e bufando. Aproveitei prá perguntar pro cliente:
agente G.: vai pagar em dinheiro ou com cheque ?
cliente: Como assim ?

..............

No momento seguinte, eu e Z. discutíamos qual pizza comprar, enquanto B. vestia o casaco prá sair e tagarelava alguma coisa.
agente B.: vocês dois são retardados !
agente G.: definitivamente peperonni.
agente Z.: que tal portuguesa?
agente B.: eu vou processar vocês!
agente G.: Z., não acha que B. foi um pouco rude com o cliente?
agente B.: Eu fui rude !?! você se jogou por cima da mesa e começou a socar o homem!!
agente G.: Isso é outro assunto. Então B., também vai querer pizza?
agente B.: vocês saíram de um hospício !
agente Z.: Acho que B. não gosta de pizza.
agente G.: Todo mundo gosta de pizza! Que tipo de maluco não gosta de pizza?
Z. colocou o dinheiro na mão de B.
B. já estava no portão quando Z. gritou:
agente Z.: a minha metade é sem enxova !
agente G.: se sobrar troco, pode comprar um salgadinho prá você !

Esse nosso primeiro caso foi há dois meses. A gente ainda tá esperando o agente B. trazer a pizza... Espero que não esqueça das enxovas !

*****

Fica aí nosso primeiro caso como propaganda, caso alguém se interesse, por favor, entrem em contato.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Surrealismo e Ilusão








As imagens são do famoso pintor russo Vladimir Kush, discípulo de Dali.
Para mais imagens e biografia: http://www.vladimirkush.com

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sinfonia da Noite inquieta

"A hora que passe e esqueça... A noite que venha, que cresça, que caia sobre tudo e nunca se erga. Que esta alma seja o meu túmulo para sempre, e que se absolute em treva e eu nunca mais possa viver sem sentir ou desejar".

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Voltaire ou o Otimismo?

Sou uma parte insignificante do grande todo.
É verdade; mas todos os animais condenados a viver,
Todas as criaturas sensíveis, nascidas sob a mesma lei,
Sofrem como eu e como eu também vêem a morrer.
O abutre agarra-se à sua tímida presa
E fere com o bico sanguinário os membros trêmulos:
Tudo vai bem, assim parece, para ele. Mas depois
Uma águia despedaça com suas garras o abutre;
A águia é trespassada pela seta do homem.
O homem, prostrado no pó dos campos de batalha,
Misturando na agonia seu sangue aos dos semelhantes,
Passa a ser por sua vez alimento das aves famintas.
E assim o mundo inteiro geme em cada um dos membros:
Todos nascidos para o sofrimento e a morte comum.
E com relação a este caos terrível direis:
Os males de cada um fazem o bem de todos!
Que bem-aventurança! E quando, com voz trêmula,
Mortal e lastimosa proclamais, 'Tudo vai bem',
O universo vos desmente e vosso coração
Contradiz cem vezes o conceito de vossa mente...
Qual o veredicto da Mente Suprema?
Silêncio! O livro do destino está fechado para nós.
O homem é um desconhecido para si próprio;
Não sabe de onde vem nem para onde vai.
Átomos atormentados num leito de lama,
Devorados pela morte, um escárnio do destino.
Mas átomos pensantes, cujos olhos de ampla visão,
Guiados pelo raciocínio, estudaram as estrelas.
Nosso ser confunde-se com o infinito.
A nós mesmos nunca chegamos a ver ou conhecer.
Este mundo, este palco de orgulho e de erros,
Está apinhado de tolos que falam em felicidade...
Houve tempo em que eu cantei em tom menos lúgubre,
As alegrias do império jovial dos prazeres;
Os tempos mudaram e, com a experiência da idade,
Participando da fragilidade do gênero humano,
Procurando um luz entre a escuridão crescente,
Posso apenas sofrer, porém, não me lamentarei.” (Voltaire)


Esse pequeno poema de Voltaire, uma critica aos otimistas, foi duramente criticado por Leibnitz que acreditava que o mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis, que Deus não poderia ter construído outro mais perfeito e que tudo corre às mil maravilhas....

Como contra-resposta Voltaire escreve Cândido, satirizando Leibnitz com a figura do filósofo Pangloss. A história tem como pretexto uma investigação filosófica, onde, por trás de eventos e personagens, o filósofo diz que afirmar que Deus tem um plano-mestre para o mundo, além de ser uma ideia absurda é cheia de contradições se a analisarmos sobre a questão do mal.

Além de ter um fundo filosófico é engraçadíssimo e um dos melhores contos que já li. Recomendadíssimo!

quarta-feira, 25 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

O TELEGRAMA DE JUVENAL

O Juvenal estava desempregado havia meses.
Com a resistência que só os brasileiros têm, o Juvenal foi tentar mais um emprego em mais uma entrevista. Ao chegar ao escritório, o entrevistador observou que o candidato tinha exatamente perfil desejado, as virtudes ideais e lhe perguntou:
- Qual foi seu último salário?
- 'Salário mínimo', respondeu Juvenal.
- Pois se o Sr. for contratado, ganhará 10 mil dólares por mês!

- Jura?
- Que carro o Sr. tem?
- Na verdade, agora eu só tenho um carrinho pra vender pipoca na rua e um carrinho de mão!
- Pois se o senhor trabalhar conosco ganhará um Audi para você e uma BMW para sua esposa! Tudo zero!
- Jura?
- O senhor viaja muito para o exterior?
- O mais longe que fui foi pra Belo Horizonte, visitar uns parentes...
- Pois se o senhor trabalhar aqui viajará pelo menos 10 vezes por ano, para Londres, Paris, Roma, Mônaco, Nova Iorque, etc.
- Jura?
- E lhe digo mais... O emprego é quase seu. Só não lhe confirmo agora porque tenho que falar com meu gerente. Mas é praticamente garantido. Se até amanhã (6ª feira) à meia-noite o senhor NÃO receber um telegrama nosso cancelando, pode vir trabalhar na segunda-feira com todas essas regalias que eu citei. Então já sabe: se NÃO receber telegrama cancelando até à meia-noite de amanhã, o emprego é seu!
Juvenal saiu do escritório radiante. Agora era só esperar até a meia-noite da 6ª feira e rezar para que não aparecesse nenhum maldito telegrama. Sexta-feira mais feliz não poderia haver. E Juvenal reuniu a família e contou as boas novas.
Convocou o bairro todo para uma churrascada comemorativa à base de muita música. Sexta de tarde já tinha um barril de chope aberto. Às 9 horas da noite a festa fervia. A banda tocava, o povo dançava, a bebida rolava solta. Dez horas, e a mulher de Juvenal aflita, achava tudo um exagero. A vizinha gostosa, interesseira, já se jogava pro lado do Juvenal.
E a banda tocava!
E o chope gelado rolava!
O povo dançava!
Onze horas, Juvenal já era o rei do bairro. Gastaria horrores para o bairro encher a pança. Tudo por conta do primeiro salário. E a mulher resignada, meio aflita, meio alegre, meio boba, meio assustada.
Às onze horas e cinqüenta e cinco minutos....vira na esquina buzinando feito louco, um cara numa motoca amarela... Era do Correio!
A festa parou!
A banda calou!
A tuba engasgou!
Um bêbado arrotou!
Um cachorro uivou!
- Meu Deus, e agora? Quem pagaria a conta da festa?
- Coitado do Juvenal! Era a frase mais ouvida.

- Joguem água na churrasqueira!
O chope esquentou!
A mulher do Juvenal desmaiou!
A motoca parou!
O cara desceu e se dirigiu ao Juvenal:
- Senhor Juvenal Batista Romano Barbieri?
- Si, si, sim, so, so, sou eu...
A multidão não resistiu...
- OOOOOHHHHHHHHHHH! !!!!!!!!! !
E o cara da motoca:
- Telegrama para o senhor...
Juvenal não acreditava.. . Pegou o telegrama, com os olhos cheios d'água, ergueu a cabeça e olhou para todos. Silêncio total. Não se ouvia sequer uma mosca! Juvenal respirou fundo e abriu o envelope do telegrama tremendo, enquanto uma lágrima rolava, molhando o telegrama..
Olhou de novo para o povo e a consternação era geral. Tirou o telegrama do envelope, abriu e começou a ler. O povo em silêncio aguardava a notícia e se perguntava:
- E agora? Quem vai pagar essa festa toda?
Juvenal recomeçou a ler, levantou os olhos e olhou mais uma vez para o povo que o encarava...
Então, Juvenal abriu um largo sorriso, deu um berro triunfal e começou a gritar eufórico:
- Mamãe morreeeeuuu! Mamãe morreeeeuuu! !!!!!!

(Muito boa, kkkkk, rí pra caramba... recebi por e-mail e postei aqui, não sei de que é...)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Peixinho vermelho... descanse em paz

Ontem, sábado de carnaval, depois de beber o dia inteiro, resolvi não sair de casa a noite. Estava de saco cheio e com uma tremenda ressaca... Como não consigo dormir até me recuperar totalmente, passei a madrugada em claro. Li um pouco e escrevi alguma coisa (engraçado como tudo o que escrevi e li se mostrou uma preparação para o que vinha a acontecer naquela noite pavorosa). Fui então beber um copo d'água antes de finalmente ir me deitar, já não suportava ficar acordado; não por sono, mais pelo simples nojo e enjôo de estar consciente.

Quando olhei pro aquário – isso o aquário – o peixinho vermelho que lá vivia, num minúsculo cubo de vidro em forma de casinha, estava morto. Deitado no fundo nem boiava ainda de ponta cabeça, como é o usual dos peixes mortos estarem... Bati no aquário, uma, duas vezes, pra ver se ele acordava. Não aceitei a idéia dele realmente estar morto, poderia estar apenas dormindo... mas não, tinha morrido mesmo.

Já tive vários contatos anteriores com a morte, mas a tristeza que me bateu ao ver aquele peixinho, que estava ali todos os dias, que nunca fez mal a ninguém ou deu trabalho algum, ou reclamou de algo e que eu alimentava até, as vezes... Nunca senti assim, tão profundamente, a morte de nada... nem do meu próprio pai, que me lembre. Um tio meu tinha morrido recentemente, mas me pareceu tão natural, mesmo ele tendo apenas trinta e poucos anos... E era até um tio próximo, querido... Mas aquele peixinho, que tinha pouco mais de dois anos... morreu tão cedo...

Aquele peixe era como um membro da família, o que mais se parecia comigo e com quem eu mais me identificava... por certo foi por isso que me senti tão mal. Uma parte de mim morreu com ele. Ele não incomodava ninguém, era quase que invisível, assim como eu... lembravam dele só para lhe darem comida, uma vez por dia, ritualmente. Certa vez o pote de ração pra peixe acabou, demorou semanas para lembrarem de comprar outro, eu mesmo, várias vezes, me esqueci. Mas ele sobreviveu apenas com o fubá que lhe jogavam...

Meu irmãozinho mais novo, sempre pedia pra colocar a comida no aquário, mas minha mãe não deixava, falava que tinha que por pouca comida, e só uma vez por dia, senão o peixe explodia... Uma vez por dia só, ele tinha algum prazer, se é que peixe sente prazer... Lembro de as vezes jogar um pouco de comida para ele, escondido, não pra ele explodir (não cai nessa), mas porque achava um absurdo ele comer uma vez por dia só, entende? Essa era a única diversão que tinha na vida...

De manhã (devia ser umas onze horas) meu irmão me acordou, avisando que o peixe havia morrido... disse que sabia e pedi para me deixarem continuar dormindo... pouco depois veio meu sobrinho, falando que o peixe tinha morrido mesmo. Voltei a dormir, não suportaria participar daquilo. Fingi que não ligava, como faço sempre... Mais tarde fiquei sabendo que as crianças fizeram um funeral pro pobre peixinho vermelho... colocaram até uma cruz em seu túmulo... Logo que acordei, meu irmão me arrastou pra lá, pedindo pra que eu rezasse por ele.

Não acredito em vida após a morte nem para os homens, como posso acreditar para um peixe? Porém, se alguém tem alma, é aquele peixe... Meu irmão mais novo perguntou, olhando triste para a cova que fizeram, porque o peixe morreu. Perguntou se é porque deram muita comida pra ele e ele explodiu... Disse que não, que morreu de velho e que todos e tudo um dia morre... Ele aceitou sem questionar, sentiu a verdade no que lhe havia dito... Mais a tarde o cachorro cavou onde o peixe estava enterrado e o comeu...

Aquele pobre peixe viveu a vida toda sozinho, não queria mais ninguém no seu aquário; vivia fechado no seu mundinho, mesmo estando longe de ser feliz, sabia que um outro só serviria para lhe trazer mais sofrimento... preferia estar só. E morreu sozinho. Nem se deu ao trabalho de boiar de barriga pra cima na superfície da água. Queria continuar lá, no fundo, perto da concha que coloquei pra ele. Morreu deitado como quem deita pra dormir...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Alguns Poemas

"Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo; encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas aos que nada 'spera
Tudo que lhe vem é grato."


"Não só quem nos odeia ou inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo, quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses."


"Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido."


"Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada."

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).